quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Ateliê

'O antes e o depois não era claro. Era como um amanhecer, perfeitamente esperado após a noite, mas o céu havia mudado de cor. E o sol tocava seus olhos cegando qualquer horizonte, qualquer perspectiva. Só havia uma direção. Apenas aquele caminho, que ele sabia, mas não via.E deslizando o calcanhar pela lateral da cama, tocou lentamente o carpete e percebeu: Havia dado o primeiro passo em direção a ela.'
Aquele quarto, aquela janela... É estranho o quanto algo tão simples e trivial pode representar dentro de um contexto. O momento ainda é uma mistura de sensações e situações não compreendidas, não interpretadas, não julgadas, não esquecidas.
Experiências vividas, e vívidas.
'Detalhista ao nível masoquista.' - Você me ganhou nessa frase. Acho que naquele olhar também, e naquela mania de lamber a tampa do iogurte, e de não deixar o chinelo virado e de fazer parte de mim de uma maneira tão simbiótica que a palavra 'nós' era o primeiro sujeito do meu singular. Que já não era mais singular.

Já é a terceira tela na semana. E a oitava do mês. 
E o ano mal começou.


Ela, já nela.

A luz não estava muito boa, choveu, a umidade do ar não ajuda a secar, os pincéis estão gastos, o sono, os projetos, o trabalho... Justificativas pra adiar o inevitável. Já não sei mais qual o momento, qual a sensação, qual sentimento. Cada vez que começo, o filme começa. E são luzes desfocadas no mesmo cenário, com centenas de momentos acontecendo a cada traço, a cada pincelada. E o começo fica confuso com o final, e a cena parece ainda mais real do que na memória. E o paradoxo toma a forma daquela janela. As cortinas balançam e vejo você. E o redemoinho de emoções e lembranças toma proporções perigosas.

Tracei a moldura. É branca com detalhes, mas a cortina era lilás ou verde-clara? Você lembra? Virou uma persiana, pra combinar com aquele abajur da exposição que você passou semanas querendo, e três dias depois esbarrou e quebrou no primeiro porre em casa. E deu lugar pro bar, que depois se tornou seu espaço da yoga, e de repente não entendo mais nada. Os traços estão borrados, fora de perspectiva.

Já é a quarta tela na semana.
'Percebeu que ainda estava dentro do momento. A realidade o atingiu com um impacto surdo, e seco, sem espaço para esboçar qualquer tipo de previsão, ou precaução. Não existia pensamento, nem cálculo, nem análise. Era pra valer. 
E então ela se foi. Uma janela fechada, lábios cerrados e coração aberto. Nunca se sentira tão só, e até os pensamentos evitaram um murmúrio para não interromper o efeito anestesiante que vem depois da dor: A culpa.'

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