quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tentar

Ele sabe que existe o erro, que as probabilidades estão calculadas à seu desfavor e que cada gota de água no asfalto é um novo adversário. Mas ainda assim o braço que guia o volante quer superar todas as forças humanas e naturais que o colocam fora do seu objetivo.

Obrigado pelos transatlânticos persistência, as canoas jamais serviriam champagne e caviar. (Tenho quase certeza de ser uma das falas de algum figurante de Titanic)

Arriscado seria não conhecer os erros, não estipular alternativas e acreditar em realização sem preparo. Não houve uma única curva sequer que ele tenha feito sem que em sua mente estivessem todos os traçados possíveis, desde o tempo de frenagem até a sua retomada. Ele conhecia o carro, a pista, e a chuva como ninguém. Além de preparado, ele já havia tentado milhares de vezes. 

E a prática sempre é recompensada.
Assim como o lutador que esquiva do golpe, cada ultrapassagem é resultado de inúmeras falhas. A quantidade de hematomas que formam um campeão é exatamente a mesma quantidade de vezes que ele pensou na vitória, e se Ali nunca tivesse sofrido um nocaute, jamais teria se tornado The Greatest

Tentar é assumir que TODAS as consequências fazem parte de um objetivo maior, e que os erros e fracassos também são parte do sucesso. É ter a força para estar pronto para o combate, a sabedoria para realizar os julgamentos coerentes e a humildade para acolher os erros com a mesma alegria da vitória.

O preço a se pagar? Tudo depende de com quanta vontade você irá tentar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Atrasado

Vivemos na correria.

Acordado no susto, e correndo o dedo pra desligar o despertador. Banho rápido, café de máquina e metrô lotado. 
Escada rolante: pista expressa do horário comercial.
O cartão, pra evitar a fila. O fone, pra evitar o diálogo. A pressa, pra não perder tempo.

O 'bomdia' monossílábico, pergunta automática, resposta mecânica, caixa eletrônico e débito on-line.

Mais rápido. Já tá quase na hora do almoço: Fast-food. coffe break, cigarette pause.

Mais depressa, o relatório está atrasado. A impressora à laser pifou. O wi-fi caiu.

Corre pra bater o ponto e marcar a hora extra. O tempo da capital rasga o céu, e a Sapucaí é quilométrica até a próxima quadra.

O farol é o zombador dos apressados, e o relógio é o golpe de misericórdia: 38 graus de atraso escorrendo pela testa, gotas apressadas até a gola da camisa entreaberta - não deu tempo de fechar na correria.

E os momentos viajam a anos-luz pela mente, rápidos demais para serem lembrados, e cotidianos demais para serem esquecidos.



*BEEP*


E morremos parados.

Perdemos nossas manhãs brigando com o botão soneca. 
Abrimos mão de relacionamentos, para termos mais tempo para alimentar nossos egos.

Cumprimos horários ao invés de comandarmos o relógio e decidir quando. E perdemos a noção do porque fazemos.

Pensamos e agimos de maneira tão instantânea, que agonizamos a demora para o miojo ficar pronto. Para o download acabar. Para que as coisas aconteçam sem que tenhamos que testemunhá-las.

Não é do fim que temos medo. É do que vai acontecer antes.

sábado, 4 de outubro de 2014

O que você não vê

Eu confesso que eu odeio isso, se for a única maneira. Tudo vai ficar bem, só tenho que manter minha mente em sua cama e sua cama na minha mente.

De todas as estradas, eu peguei o pior caminho e eu continuo a culpar o futuro em coisas que eu temo. Seu apelo é esconder tudo o que deveria ser.


Now I just abuse substances to drown out your accomplishments however few

Eu sei que parece que estou sempre chateado, mas juro que toda a dor se foi, não há mais traço de temor ou medo aqui. Agora é apenas questão de paciência, eu sou o livro sempre aberto que você nunca leu, dizendo palavra após palavra a mesma história, o mesmo fim.

Não importa quanto tempo passou, eu vou esperar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Ateliê

'O antes e o depois não era claro. Era como um amanhecer, perfeitamente esperado após a noite, mas o céu havia mudado de cor. E o sol tocava seus olhos cegando qualquer horizonte, qualquer perspectiva. Só havia uma direção. Apenas aquele caminho, que ele sabia, mas não via.E deslizando o calcanhar pela lateral da cama, tocou lentamente o carpete e percebeu: Havia dado o primeiro passo em direção a ela.'
Aquele quarto, aquela janela... É estranho o quanto algo tão simples e trivial pode representar dentro de um contexto. O momento ainda é uma mistura de sensações e situações não compreendidas, não interpretadas, não julgadas, não esquecidas.
Experiências vividas, e vívidas.
'Detalhista ao nível masoquista.' - Você me ganhou nessa frase. Acho que naquele olhar também, e naquela mania de lamber a tampa do iogurte, e de não deixar o chinelo virado e de fazer parte de mim de uma maneira tão simbiótica que a palavra 'nós' era o primeiro sujeito do meu singular. Que já não era mais singular.

Já é a terceira tela na semana. E a oitava do mês. 
E o ano mal começou.


Ela, já nela.

A luz não estava muito boa, choveu, a umidade do ar não ajuda a secar, os pincéis estão gastos, o sono, os projetos, o trabalho... Justificativas pra adiar o inevitável. Já não sei mais qual o momento, qual a sensação, qual sentimento. Cada vez que começo, o filme começa. E são luzes desfocadas no mesmo cenário, com centenas de momentos acontecendo a cada traço, a cada pincelada. E o começo fica confuso com o final, e a cena parece ainda mais real do que na memória. E o paradoxo toma a forma daquela janela. As cortinas balançam e vejo você. E o redemoinho de emoções e lembranças toma proporções perigosas.

Tracei a moldura. É branca com detalhes, mas a cortina era lilás ou verde-clara? Você lembra? Virou uma persiana, pra combinar com aquele abajur da exposição que você passou semanas querendo, e três dias depois esbarrou e quebrou no primeiro porre em casa. E deu lugar pro bar, que depois se tornou seu espaço da yoga, e de repente não entendo mais nada. Os traços estão borrados, fora de perspectiva.

Já é a quarta tela na semana.
'Percebeu que ainda estava dentro do momento. A realidade o atingiu com um impacto surdo, e seco, sem espaço para esboçar qualquer tipo de previsão, ou precaução. Não existia pensamento, nem cálculo, nem análise. Era pra valer. 
E então ela se foi. Uma janela fechada, lábios cerrados e coração aberto. Nunca se sentira tão só, e até os pensamentos evitaram um murmúrio para não interromper o efeito anestesiante que vem depois da dor: A culpa.'