Digo muito o que sei sobre a dor
E mais ainda sobre o que vivo, amor.
E amar em mão única é o único jeito
de perceber que dói abrir o peito
E depois de partido em cacos
dói também recolher os pedaços
Tão sublime que não sofro: agonizo.
E o tempo é remédio do qual não preciso
De ter na dor o mesmo prazer
De sentir o torpor na insensatez
Que corrói por dentro, voraz me devora
E em verdade vos digo: não passa, demora.
Não há ferida, não há sangue que escorre
de algo que vive, e por isso também morre
Mas que sentido há em descrever a dor
Se para vivê-la, hei de morrer do amor?
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Entre Ter
Doce, ainda que demores, tenho o tempo a seu favor.
Pra acalentar a falta, que o amargo me sirva de torpor.
E o silêncio, minha loucura contida em pensamento
Tece a trama do passado e do presente momento
em que espero pelo futuro.
Sabe, é injusto, assim como vivemos.
Nascemos sem saber,
e então partimos, sem querer.
Deixamos lágrimas, esperando levar sorrisos.
Dosamos o amor, e distribuímos olhares indecisos.
Enlouquecidos de prazer, viciados pela dor.
Tentando manter a sanidade, tentados pela vaidade
e depressivos demais para entender:
É sim, injusto como vivemos.
Padecemos da amargura de existir
E nossa ausência só justifica aquilo
Que não queremos admitir.
Pra acalentar a falta, que o amargo me sirva de torpor.
E o silêncio, minha loucura contida em pensamento
Tece a trama do passado e do presente momento
em que espero pelo futuro.
Sabe, é injusto, assim como vivemos.
Nascemos sem saber,
e então partimos, sem querer.
![]() |
| So hold me like there's no tomorrow |
Deixamos lágrimas, esperando levar sorrisos.
Dosamos o amor, e distribuímos olhares indecisos.
Enlouquecidos de prazer, viciados pela dor.
Tentando manter a sanidade, tentados pela vaidade
e depressivos demais para entender:
É sim, injusto como vivemos.
Padecemos da amargura de existir
E nossa ausência só justifica aquilo
Que não queremos admitir.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Talvez, Vinícius
Talvez
Seja a alegria que te convença
Que vale muito a presença
Que nada em excesso é demais
E a verdadeira dor de quem não ama
Rasga fio a fio a trama
Que frágil se desfaz
E a coisa mais sombria
Que há no mundo
É morrer a cada segundo
Por viver de amar...
Seja a alegria que te convença
Que vale muito a presença
Que nada em excesso é demais
E a verdadeira dor de quem não ama
Rasga fio a fio a trama
Que frágil se desfaz
E a coisa mais sombria
Que há no mundo
É morrer a cada segundo
Por viver de amar...
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Apenas mais um pouco
Essa noite eu acordei, umas 4 da madrugada
A chuva tava caindo, mas me subiu aquela parada
O suor na testa, coração agitado
Não foi algo assim tão ruim pra me deixar nesse estado
Sentei na bera da cama, a cabeça baixa
Levantei, olhei, parei, pensei, orei voltei então
Eu comecei lembrar
A cena tava igual
A lembrança tava normal
A pia pingando ou a chuva?
não era sonho, era real
Vi um pai que nem sabia escreve o próprio nome
Vi uma esposa que sabia só o que era passa fome
Um muleque que não teve quase nada da vida
Aprendeu que sonhar é igual correr num beco sem saída
E mesmo assim encontro foco, encontro força, encontrou fé
Assumiu tudo esses erros, caiu pra ficar de pé
E seguiu com a sua luta, provou que o mais difícil
É provar pra você mesmo
que não tem essa de impossível
Pensou em larga escola
Desistir de joga bola
Já tem uns irmão no corre
Vai que uma hora rola
Foi tipo Cristo no deserto, tentado a cada momento
só tendo que decidir entre culpa e arrependimento
A inveja e a ganância, desde a sua infância
Vivendo com quase nada e pensando na importância
De poder viver em paz, com a própia consciência
De saber que o que ce faz, ce tem de volta em consequência
E não foi nenhum juiz, policial aquele instante
Que tirou o que ele tinha de mais importante
Foi o tempo
Que deixou registrado que ninguém vai mandar mais
Do que o próprio passado
Agora aguenta, já nem é novidade
Pra quem perdeu tudo a mãe e o pai já é maldade
Me diz aí, onde ele tava nessa hora?
'Fazendo aquela fita, num funk perto da escola.'
É o relato de quem viu, ele chegando
Com aquela moto nova, cromada tudo brilhando
Comprada com o suor de um ano e mais um mês
Centavo por centavo, entrada mais 12 vez
Mas quando viu a cena, só então sentiu a pena
Sentenciado pela vida a morrer com um dilema
No outro dia uma nota, uma parada discreta
chegou a comenta até no Cidade Alerta
'Dois bandidos em fuga entraram em uma favela
Fizeram dois reféns, desceram pela viela
E quando foram se entregar, fim da negociação
Mataram o casal a tiro e se mataram, eram irmãos'
E pergunta pra mim, o que ele fez no final?
Levou flores pra mãe dos muleques no funeral
Ce vai falar que é utopia
ou 'Vini, caralho, ce fico loco?'
mas o foda é que tudo que o pobre quer nessa vida
é ter apenas mais um pouco
Não é um pouco de dinheiro
É um pouco de fé pra aguentar
E deita tranquilo no travesseiro
E pode pelo menos sonhar
Um pouco de humanidade
Pra andar nessa cidade
Sem se desacreditar
Era só o que ele queria
Um pouco daquilo que tá cada vez mais difícil de se encontrar
Um pouco de obrigado, um pouco de bom dia
Só um pouco dessa parada aí que ces chamam de alegria
A chuva tava caindo, mas me subiu aquela parada
O suor na testa, coração agitado
Não foi algo assim tão ruim pra me deixar nesse estado
Sentei na bera da cama, a cabeça baixa
Levantei, olhei, parei, pensei, orei voltei então
Eu comecei lembrar
A cena tava igual
A lembrança tava normal
A pia pingando ou a chuva?
não era sonho, era real
Vi um pai que nem sabia escreve o próprio nome
Vi uma esposa que sabia só o que era passa fome
Um muleque que não teve quase nada da vida
Aprendeu que sonhar é igual correr num beco sem saída
E mesmo assim encontro foco, encontro força, encontrou fé
Assumiu tudo esses erros, caiu pra ficar de pé
E seguiu com a sua luta, provou que o mais difícil
É provar pra você mesmo
que não tem essa de impossível
Pensou em larga escola
Desistir de joga bola
Já tem uns irmão no corre
Vai que uma hora rola
Foi tipo Cristo no deserto, tentado a cada momento
só tendo que decidir entre culpa e arrependimento
A inveja e a ganância, desde a sua infância
Vivendo com quase nada e pensando na importância
De poder viver em paz, com a própia consciência
De saber que o que ce faz, ce tem de volta em consequência
E não foi nenhum juiz, policial aquele instante
Que tirou o que ele tinha de mais importante
Foi o tempo
Que deixou registrado que ninguém vai mandar mais
Do que o próprio passado
Agora aguenta, já nem é novidade
Pra quem perdeu tudo a mãe e o pai já é maldade
Me diz aí, onde ele tava nessa hora?
'Fazendo aquela fita, num funk perto da escola.'
É o relato de quem viu, ele chegando
Com aquela moto nova, cromada tudo brilhando
Comprada com o suor de um ano e mais um mês
Centavo por centavo, entrada mais 12 vez
Mas quando viu a cena, só então sentiu a pena
Sentenciado pela vida a morrer com um dilema
No outro dia uma nota, uma parada discreta
chegou a comenta até no Cidade Alerta
'Dois bandidos em fuga entraram em uma favela
Fizeram dois reféns, desceram pela viela
E quando foram se entregar, fim da negociação
Mataram o casal a tiro e se mataram, eram irmãos'
E pergunta pra mim, o que ele fez no final?
Levou flores pra mãe dos muleques no funeral
ou 'Vini, caralho, ce fico loco?'
mas o foda é que tudo que o pobre quer nessa vida
é ter apenas mais um pouco
Não é um pouco de dinheiro
É um pouco de fé pra aguentar
E deita tranquilo no travesseiro
E pode pelo menos sonhar
Um pouco de humanidade
Pra andar nessa cidade
Sem se desacreditar
Era só o que ele queria
Um pouco daquilo que tá cada vez mais difícil de se encontrar
Um pouco de obrigado, um pouco de bom dia
Só um pouco dessa parada aí que ces chamam de alegria
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Soneto IV
A areia desce da ampulheta o estreito
Escorre a grão, segundo, instante
Momento exato, intacto perfeito
O tato, o lapso e o fio do semblante
Esboça a malícia e cora: embaraço
Rampante voraz que devora e sacia
Ata os nós, embaraça os laços
E o prende e desfaz de seu ciclo vicia
Ruge, provoca, açoita e pede
Se rende e desdobra a loucura ao lençol
E preenche o espírito a um, um momento
Assim como o grão que reflete o sol
Espaço vazio preenchido com tempo
Toca a areia e o marco cede
Escorre a grão, segundo, instante
Momento exato, intacto perfeito
O tato, o lapso e o fio do semblante
Esboça a malícia e cora: embaraço
Rampante voraz que devora e sacia
Ata os nós, embaraça os laços
E o prende e desfaz de seu ciclo vicia
Ruge, provoca, açoita e pede
Se rende e desdobra a loucura ao lençol
E preenche o espírito a um, um momento
Assim como o grão que reflete o sol
Espaço vazio preenchido com tempo
Toca a areia e o marco cede
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Instinto Racional
'Bebeu. O gole seco e a garganta arranhada, o suor na têmpora escorrendo pela barba por fazer tocou a gola da camisa e o copo foi ao balcão de mármore. - Mais uma. - Imperativo, sem olhar fixo, sem esboçar sequer uma reação. E foi a oitava dose.O ponteiros marcavam dez minutos para a meia noite quando ele acenou para o táxi. O resto do caminho foi involuntário, até se dar conta de aonde realmente estava: O jardim, a caixa de correios, a persiana. E a janela.Vidros fechados e persiana aberta, mas com certeza já dormia.Buscou o maço de cigarros no bolso, e lembrou das chantagens positivas - Sacanagem.A luz acendeu por dentro da janela e ele percebeu uma silhueta se formar por detrás da persiana: Era ela.Uma mão tocou a janela, que lentamente se abriu.- Ô meu chapa! - Alguém cutucava seu ombro.Abriu os olhos e viu a forma desfigurada do rosto do atendente por trás do vidro do copo. O bar já estava a fechar, mas o balcão do qual levantava o rosto era de madeira.'
Hoje pensei em você.
Um pensamento, ainda que abstrato, é apenas um pensamento. Ainda que estranho, insano ou bizarro. É algo mentalizado, que pertence a uma realidade remota, preenchida apenas com as infinitas possibilidades do 'e se'.
Alterar esse pensamento significa brincar com a lógica. Explorar raias obscuras da racionalidade, e quem sabe, da irracionalidade.
Do instinto, do prazer.
Mas colocar uma realidade dentro de um contexto de tal teor é como aproximar uma brasa da gasolina, ou se dependurar de um prédio de quinze andares. Perigoso, porém, tentador. E a mente humana quase sempre tende a ser instintiva. Sente prazer no irracional. Busca respostas no ilógico.
Mas é tão extasiante a sensação de criar o que quisermos, de controlar a tudo isso, que nos rendemos à tais impulsos assim como uma criança para de chorar ao ganhar um doce. E abraçamos as possibilidades. A eterna gratidão pelo que pode ser é instantaneamente trocada pelo arrependimento do que poderia ter sido. E o paradoxo das possibilidades se abre como um buraco negro devorando uma galáxia recém-formada, reduzindo um gloriso oceano à uma mera poça de lamentos.
E a velocidade que isso acontece no espaço de um pensamento é tão grande que quando percebemos, já aconteceu. Sentir as emoções através de um pensamento é como jogar um videogame de corrida. Sentar no cockpit e vencer uma prova é viver essas emoções.
'Levantou, ainda sonolento e desorientado pelo álcool. Procurou a carteira no bolso esquerdo. Documentos. Seu nome. A foto 3x4. Era ele.O atendente voltava lentamente, e seu semblante era mais fechado. Havia algo errado.- Cara, é você? - apontou para a televisão na parede oposta, e seguindo a orientação do dedo magro do rapaz, virou o corpo na cadeira alta e sentiu o alcool se tornar gelo dentro de suas veias.O mesmo rosto da foto. O mesmo nome do documento. E um letreiro: PROCURADO POR ASSASSINATO.'
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Ex-posição
'Percebeu que ainda estava dentro do momento. A realidade o atingiu com um impacto surdo, e seco, sem espaço para esboçar qualquer tipo de previsão, ou precaução. Não existia pensamento, nem cálculo, nem análise. Era pra valer.
E então ela se foi. Uma janela fechada, lábios cerrados e coração aberto. Nunca se sentira tão só, e até os pensamentos evitaram um murmúrio para não interromper o efeito anestesiante que vem depois da dor: A culpa.'
Desisti das telas.
Na verdade apenas abri mão temporariamente de uma morfina psicossomática associada a um talento para colorir, e um talento para não esquecer. Aprendi a apreciar a obra dentro do contexto ao qual ela pertence: Uma realidade finda, presa a seu tempo e à minha sina, lembrar.
Não é trazer a tona. É como lembrar do primeiro mergulho, ou do primeiro beijo.
Decidi que vai ser assim, e a culpa é minha. Fica mais fácil se culpar quando não existe nenhuma explicação plausível ou lógica. Ou poderia culpar Deus também, mas que diabos ele tem a ver com isso eu sinceramente duvido que saiba.
Uma culpa recíproca, é até um pouco covarde, mas vicia. O perdão é garantido, e a dignidade nessa história vale tanto quanto as telas. Ou menos, o abstratismo sempre ganhou mercado, tanto artístico quanto psicológico.
Aquela dose forte, e lenta, Milton, é... tô começando a te entender, e a não entender mais nada sobre amor.
Foi questão sim de assumir uma posição, mas em relação a realidade. Estabelecer o que foi bem longe de o que é, e abrir mão de lógicas explicativas sobre uma relação de como existe um padrão comportamental que se repete ao longo dos anos. Eu já conheço esse padrão que já tem se repetido por demais num ciclo muito curto, e é absolutamente contra todas as teorias de psicanálise sobre como o aprendizado pela dor pode influenciar o desenvolvimento de psicoses e traumas. Ou eu posso estar completamente errado, e louco.
Seria loucura traduzir pinturas em palavras?
'Bebeu. O gole seco e a garganta arranhada, o suor na têmpora escorrendo pela barba por fazer tocou a gola da camisa e o copo foi ao balcão de mármore. - Mais uma. - Imperativo, sem olhar fixo, sem esboçar sequer uma reação. E foi a oitava dose.
O ponteiros marcavam dez minutos para a meia noite quando ele acenou para o táxi. O resto do caminho foi involuntário, até se dar conta de aonde realmente estava: O jardim, a caixa de correios, a persiana. E a janela.
Vidros fechados e persiana aberta, mas com certeza já dormia.
Buscou o maço de cigarros no bolso, e lembrou das chantagens positivas - Sacanagem.
A luz acendeu por dentro da janela e ele percebeu uma silhueta se formar por detrás da persiana: Era ela.
Uma mão tocou a janela, que lentamente se abriu.
- Ô meu chapa! - Alguém cutucava seu ombro.
Abriu os olhos e viu a forma desfigurada do rosto do atendente por trás do vidro do copo. O bar já estava a fechar, mas o balcão do qual levantava o rosto era de madeira.'
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