quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Cadente 2

'-Você acredita em desejos? - Ela perguntou quase em silêncio.
Ainda deitado, os olhos já haviam se acostumado a claridade repentina, e se encontraram por um instante, os segundos deixando de ter importância para o ciclo do tempo, e durante uma fração de existência, suficiente para que uma ligação sináptica acontecesse, ele soube:
-Desejo acreditar em você.’

' - Quem nunca cometeu uma loucura, que atire a primeira pedra.' - Aí sim eu botava uma fé em você Jesus!
Foi com essa frase que ele de repente despertou. Sentiu a umidade tocar a ponta dos dedos. O vidro do copo lembrava que a cerveja já estava passando, e automaticamente a outra mão buscou a garrafa que descansava no gelo do balde posto à mesa. O sorriso normal. O copo cheio, normal.

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Diferente né? Fora do normal?
Pois é, talvez seja disso que estamos precisando.
De desconformidades. Alterações fora do padrão lógico.
Novidades.

Mas será que tomar um caminho diferente para o trabalho, ou tirar aquela pausa para o café mais tarde, realmente muda alguma coisa? Ou a ordem das variáveis simplesmente não interfere na equação? Seria um paradoxo prever uma possibilidade sujeita à uma probabilidade?

Uma coisa é certa: Leve seu guarda-chuva se quiser apreciar um belo arco-íris, pois o dia que esquecê-lo, ira lembrar apenas do temporal.

'E então ele tirou a armadura.
Despiu o orgulho de qualquer proteção, e vergonha, e se entregou.
Aquela sensação ainda estava sendo digerida, e procurando dentro de alguma explicação entender o que significava. Qual era o sentido de todas aquelas enzimas e hormônios, e pensamentos e dúvidas que tomavam proporções atômicas dentro daquele mínimo instante.
O antes e o depois não era claro. Era como um amanhecer, perfeitamente esperado após a noite, mas o céu havia mudado de cor. E o sol tocava seus olhos cegando qualquer horizonte, qualquer perspectiva. Só havia uma direção. Apenas aquele caminho, que ele sabia, mas não via.
E deslizando o calcanhar pela lateral da cama, tocou lentamente o carpete e percebeu: Havia dado o primeiro passo em direção a ela.'

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Cadente

'O vento tocou suavemente seu rosto, e ele acordou com a brisa quente daquela manhã de verão.
As cortinas dançavam suavemente, e através da janela entreaberta os primeiros raios do sol invadiam o quarto alcançando lentamente o limiar da cama, e enfim chegando ao seu corpo.
O calor.
Abriu os olhos e então percebeu uma silhueta se formar e se destacar frente à janela, mesmo com a visão desfocada e desorientada pelo excesso de luz não havia dúvida: Era ela.
E isso era muito bom. '
 
Certa vez, em um dia não muito longe dos atuais, mas em uma realidade um pouco mais distante, vi uma estrela cadente.
Ou acho que vi.
Mas se existe algo que podemos ter certeza, é do que sentimos. Apesar de não saber exatamente o que, ou como, sentimos. E tentar descrever um sentimento é tão abstrato quando descrever uma cor para alguém que nunca teve visão.
Não lembro exatamente que dia da semana era. Ou qual estação. Se o ar estava quente, ou úmido. Nem que roupa eu usava naquela noite.
Mas lembro que era noite.

Tão óbvio quanto associar um evento a uma situação, é associar uma emoção a um sentimento.
Tristeza é emoção, sentimento ou estado de espírito? E alegria?
Sei que era noite, e não era um bom dia.
Sei que estava triste, mas senti alegria.
Sei que estava em paz.

Perguntaria-me, se estivesse do outro lado da narrativa: ‘Como você viu? De onde veio? Você fez um pedido?’ e todas essas respostas passariam obsoletas frente ao real significado do momento. Seriam detalhes impertinentes ao seu significado, e sem valor nenhum pra qualquer tipo de interpretação lógica ou racional.

Mas e você, o que me perguntaria?

‘-Você acredita em desejos? - Ela perguntou quase em silêncio.
Ainda deitado, os olhos já haviam se acostumado a claridade repentina, e se encontraram por um instante, os segundos deixando de ter importância para o ciclo do tempo, e durante uma fração de existência, suficiente para que uma ligação sináptica acontecesse, ele soube:
-Desejo acreditar em você.’

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Anormal

Normalmente ele pediria uma coca. Gelo e limão no copo.
E normalmente o bife viria acompanhado das fritas, cebolas ao lado.
O almoço normal, no restaurante normal, no horário normal, por um preço um pouco acima do normal.

E pediria a conta, indicador levantado, aceno normal.
O cartão, a senha, o obrigado formal, e normal.

Mas quando ele entrou normalmente, ela estava lá.