'Percebeu que ainda estava dentro do momento. A realidade o atingiu com um impacto surdo, e seco, sem espaço para esboçar qualquer tipo de previsão, ou precaução. Não existia pensamento, nem cálculo, nem análise. Era pra valer.
E então ela se foi. Uma janela fechada, lábios cerrados e coração aberto. Nunca se sentira tão só, e até os pensamentos evitaram um murmúrio para não interromper o efeito anestesiante que vem depois da dor: A culpa.'
Desisti das telas.
Na verdade apenas abri mão temporariamente de uma morfina psicossomática associada a um talento para colorir, e um talento para não esquecer. Aprendi a apreciar a obra dentro do contexto ao qual ela pertence: Uma realidade finda, presa a seu tempo e à minha sina, lembrar.
Não é trazer a tona. É como lembrar do primeiro mergulho, ou do primeiro beijo.
Decidi que vai ser assim, e a culpa é minha. Fica mais fácil se culpar quando não existe nenhuma explicação plausível ou lógica. Ou poderia culpar Deus também, mas que diabos ele tem a ver com isso eu sinceramente duvido que saiba.
Uma culpa recíproca, é até um pouco covarde, mas vicia. O perdão é garantido, e a dignidade nessa história vale tanto quanto as telas. Ou menos, o abstratismo sempre ganhou mercado, tanto artístico quanto psicológico.
Aquela dose forte, e lenta, Milton, é... tô começando a te entender, e a não entender mais nada sobre amor.
Foi questão sim de assumir uma posição, mas em relação a realidade. Estabelecer o que foi bem longe de o que é, e abrir mão de lógicas explicativas sobre uma relação de como existe um padrão comportamental que se repete ao longo dos anos. Eu já conheço esse padrão que já tem se repetido por demais num ciclo muito curto, e é absolutamente contra todas as teorias de psicanálise sobre como o aprendizado pela dor pode influenciar o desenvolvimento de psicoses e traumas. Ou eu posso estar completamente errado, e louco.
Seria loucura traduzir pinturas em palavras?
'Bebeu. O gole seco e a garganta arranhada, o suor na têmpora escorrendo pela barba por fazer tocou a gola da camisa e o copo foi ao balcão de mármore. - Mais uma. - Imperativo, sem olhar fixo, sem esboçar sequer uma reação. E foi a oitava dose.
O ponteiros marcavam dez minutos para a meia noite quando ele acenou para o táxi. O resto do caminho foi involuntário, até se dar conta de aonde realmente estava: O jardim, a caixa de correios, a persiana. E a janela.
Vidros fechados e persiana aberta, mas com certeza já dormia.
Buscou o maço de cigarros no bolso, e lembrou das chantagens positivas - Sacanagem.
A luz acendeu por dentro da janela e ele percebeu uma silhueta se formar por detrás da persiana: Era ela.
Uma mão tocou a janela, que lentamente se abriu.
- Ô meu chapa! - Alguém cutucava seu ombro.
Abriu os olhos e viu a forma desfigurada do rosto do atendente por trás do vidro do copo. O bar já estava a fechar, mas o balcão do qual levantava o rosto era de madeira.'
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