Não é a primeira vez, nem nessa semana, mas a sensação é de que ainda não aprendi a lidar com isso.
A posição dos dedos segurando o lápis, o cheiro do papel novo, o comercial na televisão do vizinho e o ruído de motores e barulhos de buzinas, e vozes e passos, não chegam nem perto de despertar qualquer tipo de inspiração. Nenhum lampejo de criatividade, nem sequer uma fagulha de otimismo.
E a página continua em branco.
Uma pausa para um café. Um minuto para olhar para o céu e para as árvores. Acendo um cigarro e observo a luz contornar a fumaça ao redor dos dedos, na vã esperança que eles possam chegar à uma conclusão sem a necessidade de pensar em fazê-los escrever.
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| A conclusão é matemática e lógica: Trago. Inspiro. Expiro. |
E eis que eles vêm: Como vaga-lumes cintilando aos primeiros sinais do anoitecer, pequenas centelhas começam a disputar espaço no palco da minha visão, e vão dançando em ritmos diferentes, como uma valsa de embriagados, cada qual com seu passo ora lento, ora acelerado. Um diálogo sem palavras, mas de uma eloquência expressiva que é sentida além do olhar.
A cortina do crepúsculo cobre o horizonte e os vagalumes se dispersam, dão lugar a barulhos e vozes que se intensificam ao cair da noite. A clareza daquele momento já é ofuscada por uma ausência de mim mesmo em meio ao mundo ao meu redor. Que lugar é esse aonde eu somente sei aonde estou quando não estou em lugar algum? Quando tudo me parece claro quando não tenho a mínima certeza do que pode acontecer?
Quando a história já está escrita sem sequer eu precisar escrever?

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